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Se o paciente não percebe o valor na Saúde, cuidado para não perder o foco

Assistência centrada no indivíduo e posterior coleta de impressões são fatores fundamentais para a criação de uma experiência positiva que, de fato, gere valor a todos os envolvidos no ecossistema da Saúde

Marcelo Freire, jornalista da agência essense

O que significa gerar valor na Saúde? Diante dessa pergunta, Georgia Matos, coordenadora do grupo de trabalho de Saúde Suplementar do Serviço Social da Indústria (Sesi), tem muitos exemplos práticos para apresentar.

Ao longo de sua experiência de quase 20 anos junto às empresas contratantes, ela ouviu muitas histórias que a marcaram. Georgia se lembra, por exemplo, de uma funcionária que sentia dores crônicas no tornozelo. Nas idas frequentes ao ortopedista, os procedimentos eram os de sempre: avaliação, raio-x, ressonância magnética e anti-inflamatório. O especialista nunca investigou, a fundo, as causas da queixa.

Até que outro profissional, o médico do trabalho, interveio e orientou que ela se consultasse com um fisioterapeuta antes de retornar ao ortopedista. E a primeira pergunta que o fisioterapeuta fez foi: “como você se senta para trabalhar?”

Bingo: ela ficava por muito tempo sentada em cima do pé, forçando o tornozelo.

“Quando o fisioterapeuta percebeu isso, já tinham feito vários exames de raios-x, ressonâncias, e muito anti-inflamatório foi receitado. E ela só precisava mudar o jeito de se sentar”, explica Georgia. “O ortopedista não se perguntou, em nenhum momento, de onde vinha a dor. Ele provavelmente só iria intervir quando ela rompesse o tendão e precisasse de uma cirurgia.”

Este é só um exemplo de como o valor na Saúde precisa estar diretamente ligado à experiência do indivíduo.

É o mesmo que dizer que o cuidado deve estar presente em toda a jornada do paciente, desde o diagnóstico até o pós-alta – passando pela promoção e prevenção à saúde.

A história relatada pela coordenadora do Sesi também mostra a dimensão do desperdício de recursos nesses procedimentos – exatamente o contrário do que pregam modelos baseados em valor. Afinal, apenas uma das ressonâncias magnéticas que a paciente realizou teria sido capaz de cobrir diversas sessões de fisioterapia – aquilo que finalmente resolveu o problema.

A real percepção de valor

Michelle Mello, diretora executiva e cofundadora da Designing Saúde, percebe alguma mudança na cultura das organizações de Saúde, que já começam a se voltar para o real significado de “gerar valor” para o paciente. “Se temos dois tratamentos que trazem o mesmo desfecho clínico, pode-se avaliar que aquele de menor custo é o que gera mais valor para o sistema. Essa é a base dos modelos baseados em valor. Mas há uma parte importante e que muitas vezes é negligenciada, que é descobrir o valor que está sendo gerado para o paciente. Como ele percebeu a experiência? Aquele tratamento fez diferença em sua vida?”, questiona. “Vou dar um exemplo: um tratamento para obesidade. Existem as opções cirúrgica e clínica. Ambas reduziram o peso do paciente. Mas elas tiveram o mesmo valor para ele?”

Michelle acredita que a discussão sobre valor na Saúde ainda está muito atrelada à questão do custo, incorporando muito pouco o olhar para o paciente. Aliás, o exemplo citado por Georgia no início desta reportagem expõe as dificuldades do sistema justamente em centrar o cuidado naquele que o recebe. Ela lembra de outras histórias com desfecho parecido, mas também têm situações positivas para contar. Sua irmã, que morreu de um câncer, encontrou uma parceira na fase final da doença. Depois de ouvir do oncologista que “não havia mais nada a ser feito”, uma frase que representou um baque para a paciente e seus familiares, Georgia buscou uma médica que trabalharia em um tratamento paliativo. “A primeira coisa que essa médica disse foi que havia muita coisa a ser feita: ‘a sua irmã está viva, sua vida vale a pena e temos que garantir a máxima qualidade possível para ela.'”

Essa médica permaneceu no ciclo de cuidado da irmã de Georgia até que ele se encerrou. “O que ficou para nós foi a lembrança dessa relação. Prova clara de que o valor está muito mais ligado à experiência que ao desfecho propriamente dito”, define.

Apesar do relato, a coordenadora do Sesi ressalta que os próprios usuários dos serviços, muitas vezes, não têm essa mesma percepção sobre o que é valor na Saúde. “Alguns pensam que uma experiência de valor é fazer uma cirurgia, ou tomar um remédio, e voltar a trabalhar no dia seguinte. De forma geral, os trabalhadores são pouco conscientes nesse ponto.”

Georgia e Michelle concordam que os usuários dos planos de saúde e as empresas contratantes precisam compreender melhor conceitos como promoção e prevenção da saúde. Esse é um ponto fundamental para uma experiência centrada no paciente – já que o desfecho também depende dele.

Uma jornada de quatro pilares

Para exemplificar melhor esse caminho, Michelle elencou quatro pilares que contribuem para otimizar a jornada do paciente em um modelo de valor:

1- Engajar o paciente ao plano de cuidado. Ela ressalta que tanto o indivíduo quanto sua família precisam ser devidamente informados sobre cada ponto do tratamento para, de fato, gerar engajamento. “O paciente precisa colaborar, aderindo à medicação e aos procedimentos em geral, desde a hora do diagnóstico até o pós-alta – que é um momento importante para evitar que ele tenha complicações.”

2- Usar tecnologias em prol do paciente. A diretora executiva da Designing Saúde se anima com a crescente adesão de tecnologias remotas, principalmente por causa da pandemia. Mas ela destaca que essas tecnologias precisam ir além dos benefícios para o prestador do serviço, que normalmente ganha capilaridade e alcance com o uso dessas soluções. “O objetivo da tecnologia nessa jornada de trazer valor é facilitar a vida do paciente, melhorando sua rotina e fazendo ele perder menos tempo durante o seu dia”, pontua.

Ela aponta que a telemedicina, em geral, foi um caso positivo – “facilita bastante o atendimento e o paciente nem precisa sair de casa”, aponta. Mas tudo pode ir por água abaixo se a pessoa, por exemplo, não consegue utilizar a plataforma de forma adequada. “Se ela não estiver habituada à tecnologia e o profissional não souber explicar e engajá-la naquela utilização, vai virar um transtorno.”

3- Garantir tratamento seguro. Michelle cita que todos os prestadores precisam se basear em pesquisas, informações e evidências científicas para propor terapias e cuidados. “Temos muitas pesquisas e informações e elas têm que ser usadas a favor do paciente. As terapias e protocolos precisam ser baseados na melhor evidência científica disponível, dentro de um critério de segurança do paciente. Isso é fundamental.”

4- Usar indicadores adequados. Os indicadores são sempre lembrados quando se pensa em valor na Saúde, mas Michele ressalta que, na maior parte das vezes, os gestores focam em indicadores de resultados clínicos e na entrega que trazem para o prestador. Para medir o valor para o paciente, no entanto, ela afirma que os indicadores mais adequados são os Prems e Proms, que funcionam como pesquisas para medir a experiência do paciente com o serviço de Saúde.

Os Prems (Experiência Relatada pelo Paciente, na tradução da sigla para o português) estão relacionados à jornada do paciente na instituição de Saúde, desde o início do atendimento até a alta. Por esse motivo, as perguntas se referem a como ele se sentiu durante a permanência no local. “Como ele foi acolhido no hospital? Como foi a experiência na sala de espera? E a comunicação com a equipe? Essas são algumas das perguntas que são feitas nos Prems”, explica Michelle.

Já os Proms (Desfechos Medidos pelo Paciente, segundo a tradução da sigla) são coletados após o tratamento e questionam se ele foi eficaz – em resumo, se gerou algum resultado no dia a dia do paciente. “Imagine um paciente com uma dor na coluna que o impedia de amarrar o sapato. Depois de passar por uma cirurgia, ele já consegue fazer isso sem sentir dores? Ele consegue subir e descer escadas? O tratamento impactou positivamente sua vida?”, exemplifica.

Para a diretora executiva da Designing Saúde, o cenário ideal é a coleta dos Prems e Proms e a soma desses resultados aos indicadores clínicos e de custo que representam o lado de quem está prestando o serviço.

O caminho é a colaboração

Nenhum modelo de remuneração, poderá, por si só, assegurar a geração de valor para o paciente se as organizações de Saúde não se engajarem juntas nessa mudança cultural. Por isso, Michelle aposta que os modelos colaborativos, comuns em outros países, são fundamentais para acelerar esse processo no Brasil. “Nos Estados Unidos, os consultórios, clínicas e laboratórios se organizam em rede para produzir um modelo de cuidado baseado em valor, atingindo melhores resultados a um custo menor. Se os players quiserem fazer o mesmo no Brasil, precisam buscar esse formato colaborativo, incorporando o pagador, o prestador e as indústrias farmacêutica e de tecnologia”, define.

“Afinal”, conclui Michelle, “não conseguimos gerar valor em Saúde sozinhos”.

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