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O Brasil mais idoso exigirá novos modelos (e mais tecnologia) na Saúde

Segundo Rodrigo Guerra, especialista em inovação, o fee-for-service dará lugar a modelos baseados em valor, com foco na prevenção de doenças, mais eficientes e sustentáveis

Marcelo Freire, jornalista da agência essense

A população brasileira está envelhecendo de forma cada vez mais acelerada. Essa impressão é referendada pelos números: segundo projeção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os maiores de 65 anos representarão nada menos que 40% da população brasileira em 2100.

Para quem trabalha com Saúde, a estimativa escancara a necessidade de mudança de mentalidade. E isso não pode demorar: ao longo dos próximos anos, as instituições têm que se preparar para atender o crescimento de um público mais idoso – e, consequentemente, mais dependente da assistência.

Rodrigo Guerra, economista de formação, conhece bem o desafio. Especialista em inovação e transformação digital, ele exerceu papéis de liderança na Unimed por 13 anos e hoje comanda a UP Health, startup que oferece planos de saúde empresariais. 

Guerra lembra que essa reversão na pirâmide etária, com o crescimento dos mais idosos e a diminuição dos mais jovens, é uma realidade que os países da Europa já viveram anos atrás. Assim como o Brasil, eles também precisaram pensar em alternativas para lidar com uma população cada vez mais envelhecida.

Mas há uma diferença fundamental entre as realidades brasileira e europeia. “Esses países enriqueceram antes de envelhecer”, diz Guerra. “O Brasil, por sua vez, caminha para o envelhecimento sem ter promovido desenvolvimento e redução de desigualdades sociais. É muito preocupante.”

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Público e privado: desafios diferentes

A demanda de uma pessoa pelos serviços de saúde aumenta a partir do momento que ela ultrapassa a barreira dos 60 anos. Para cobrir os custos com um plano de saúde, é preciso contar com a renda acumulada ao longo dos anos ou uma boa aposentadoria. Do contrário, a saída é a Saúde pública.

Apesar das qualidades do SUS – um “ativo valiosíssimo” para o Brasil, como reconhece Guerra –, o desafio da Saúde pública é imenso. O desenvolvimento da assistência envolve, segundo o especialista, uma readequação do orçamento público. Com uma aplicação mais inteligente da verba, é possível estruturar melhor o setor e aumentar a remuneração dos profissionais.

No caso da Saúde privada, os obstáculos são menores. Mas isso não significa que eles também não representem uma grande mudança cultural, em especial no caso dos modelos de remuneração. Nesse contexto, o fee for service, ou a remuneração baseada na quantidade de procedimentos realizados, precisará ser rapidamente substituído por modelos baseado em valor.

“O fee-for-service representa uma estrutura de custos que vai colapsar. Ela é pautada pelo mutualismo – ou seja, os jovens pagam e não usam, e é esse recurso que paga a conta dos usuários mais idosos. É a mesma lógica da Previdência”, aponta Guerra.

Por um modelo mais eficiente

Como alternativa, ele diz que os modelos baseados em valor – que remuneram os agentes da Saúde pela qualidade e efetividade, e não pela quantidade – são a resposta para que a estrutura tenha uma base mais sólida e os custos sejam racionalizados. Mas esses novos modelos não serão implementados de maneira isolada.

“Essas soluções se unirão a outros elementos, como o desenvolvimento da atenção primária e do conceito da integralidade na Saúde, com um médico que acompanha o paciente – presencialmente e virtualmente – por um longo período e o conheça profundamente. Tudo isso resultará em procedimentos mais efetivos.”

Apesar do otimismo, Guerra sabe que essa mudança está longe de ser automática – porque, mesmo ineficiente, o modelo do fee for service conta com a significativa vantagem de já estar implementado. “Toda a estrutura – médicos, colaboradores, empresas – está construída há bastante tempo e continua pagando as contas. É difícil alterar o jogo quando a empresa consegue ganhar dinheiro de uma determinada forma. Mudar gera ansiedade e desconfiança”, reconhece. 

Mas, à medida que os modelos mais racionais são ofertados no mercado, Guerra diz que a tendência é que o equilíbrio entre custo e eficiência mude o jogo em favor desse formato. “É um processo que demanda certo tempo. Não vai mudar por decreto”, ressalta.

A tecnologia como resposta

Um aspecto que traz soluções tanto na Saúde pública quanto na privada é a introdução de tecnologia. É ela que está por trás de boa parte das soluções quando se fala em efetividade na assistência.

Guerra afirma que mudanças trazidas pelas inovações tecnológicas já impactam de forma profunda as relações e dinâmicas no trabalho. “Há uma abdicação maior da força física, com a realização de trabalhos intelectuais, feitos em casa, e menos necessidade de locomoção. A tecnologia compensa as limitações físicas”, diz ele.

O resultado disso, analisa o especialista, é a extensão do período laboral e da vida útil das pessoas. “Quando o trabalho acontecia primordialmente na indústria, e o trabalho braçal era a tônica, a idade de 60 anos era um limitador. Agora, o conceito de idoso vai mudar e podemos encontrar um equilíbrio nessa equação.”

Mas é claro que a tecnologia impacta também de forma mais localizada, causando minirrevoluções em determinadas áreas. A inovação, por exemplo, é fundamental para o desenvolvimento constante das próteses e também de medicamentos, prolongando o tempo e a qualidade de vida das pessoas.

Nesse contexto, a tecnologia também atua para a disseminação do conceito de autocuidado, com a utilização de aplicativos e ferramentas que permitam ao próprio paciente o acompanhamento de sua saúde.

“O leque de funcionalidades é muito grande. Temos os wearables [dispositivos tecnológicos que podemos vestir no corpo] e apps de monitoramento de elementos como frequência cardíaca, movimentos bruscos, mapeamento de risco, predisposição para desenvolvimento de novas doenças, mapeamento genético…”, enumera Guerra.

Segundo ele, os dispositivos também causarão mudanças na prescrição e administração de medicamentos, contribuindo bastante para um uso mais eficiente dessas substâncias. “Nós poderemos medir a aderência e o impacto de um remédio no organismo, em tempo real, e saber se ele está sendo realmente eficaz. Além disso, os dispositivos serão um auxílio na indicação, por exemplo, de uma complementação nutricional para o paciente.”

A colaboração como consequência

Para Rodrigo Guerra, essas novas ferramentas representam um salto tecnológico muito relevante e serão fundamentais para o tratamento preventivo de doenças e prolongamento da vida. Mas há outro conceito determinante para que as organizações tradicionais de Saúde sobrevivam e facilitem a introdução dessas soluções: a colaboração entre organizações, especialmente na possibilidade de parcerias entre instituições tradicionais e health techs.

“Esse tipo de colaboração é benéfica e já está acontecendo”, diz Guerra. “As health techs têm um leque de soluções que é muito interessante e também facilitam que aqueles que recebem o serviço percebam a sua qualidade”, afirma.

“Isso gera uma grande pressão nas grandes operadoras de saúde, por exemplo. Agora, elas estão dando passos para incorporar health techs ou fazer projetos de forma conjunta no teste de novas soluções. É uma transformação gradativa para o setor”, conclui.