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Humanização e inovação: os caminhos para melhorar o autocuidado e engajar os pacientes

Para Leandro Miranda, da Dasa, humanizar o atendimento também passa pela implementação de tecnologia – desde que ela seja construída da maneira adequada

Marcelo Freire, jornalista da agência essense

“A função da tecnologia é conectar pessoas, e não separar.” Essa frase simples, e aparentemente óbvia, é um resumo perfeito sobre a visão de Leandro Miranda quando questionado sobre inovação em Saúde.

Humanização do atendimento e inovação são aspectos complementares na Saúde. Ambos exigem um grau elevado de aproximação – dos médicos com os pacientes, no primeiro caso, e de profissionais da Saúde com a tecnologia, no segundo.

Médico intensivista, Miranda é um daqueles personagens da Saúde que sempre se dedicou ao atendimento de pacientes e também à compreensão de como a tecnologia pode ajudar a medicina. 

“Já na época da residência me falavam assim: ‘você, que gosta de computador, tem que nos ajudar a construir esse prontuário. Nós precisamos extrair essas informações”, conta ele, que hoje atua na Dasa e no Hospital 9 de Julho como gerente de informática médica, no apoio à construção da jornada digital. 

Miranda não é o responsável pela aplicação da inovação mais disruptiva, que fica a cargo de outra área; sua tarefa é pensar em inovações menores que, somadas, contribuem para a mudança cultural da empresa. “A modernização de processos e rotinas já é um passo nesse sentido”, diz.

O consultório do futuro e o prontuário inteligente

Nesse rol de inovações sem a tecnologia como protagonista, o gestor cita, como exemplo, a modernização dos consultórios. “Nós podemos fazer esse trabalho com mudanças simples, como a alteração da tradicional estrutura que coloca o paciente de um lado e o médico do outro, com uma mesa no meio”, afirma. “Às vezes, só de mudar a mesa de lugar ou colocar uma maca mais confortável, você já cria uma arquitetura que está aproximando o paciente do médico.”

Mas a inovação no consultório não se limita, obviamente, a mudanças nas mesas e macas. A tecnologia também está presente nessa missão, e Miranda cita especificamente o seu papel para construir um prontuário mais inteligente que auxilie o trabalho do médico e dos profissionais da Saúde.

“O prontuário tem que ajudar o profissional utilizando recursos como, por exemplo, o autopreenchimento. A inteligência artificial tem capacidade de reconhecer padrões e preencher o formulário com informações essenciais.”

Para ele, um segundo passo para o uso de inteligência artificial nos prontuários pode ser a sugestão de medicação, baseado no histórico do paciente e em todo o conhecimento agregado sobre a patologia. “O futuro do consultório digital e da inovação será a medicina especializada”, diz. “E, a partir desse cuidado no consultório, o atendimento também vai melhorar no ambulatório, caso haja a conexão eficiente entre esses dois ambientes.”

Para que esse conceito ganhe forma, no entanto, ele concorda que a mudança cultural precisa ser bem mais profunda do que a simples introdução de tecnologia. “Não adianta pensar na construção desse novo prontuário se ele não der usabilidade para o médico. Senão, ele vai se preocupar mais com o sistema do que com o paciente. Para que a decisão desta inteligência artificial sirva de suporte para o médico, a primeira coisa a ser feita é garantir que médico e profissionais de Saúde confiem nela.”

Ele conta ter observado, muitas vezes, médicos anotando informações que já estão registradas no prontuário. “Eles fazem isso porque não confiam no sistema. Assim, nós gastamos minutos preciosos com um trabalho que já foi feito.”

A construção de tecnologia confiável e eficiente

Apesar de todo o “hype” em torno da inteligência artificial, o especialista concorda que os algoritmos, por si só, não estão imunes a falhas. “Quando falamos em inteligência artificial, são milhares de técnicas e métodos, processamento de imagem, linguagem. Cada um tem sua função, e isso pode gerar viés. Em outras palavras: a inteligência artificial pode aprender errado, e a gente tem várias discussões nesse aspecto.”

Para esses dois desafios – a construção de uma tecnologia que não aprenda errado, e a conquista da confiança dos profissionais da Saúde –, a resposta é a mesma, segundo ele.

“É preciso engajar a ponta. Ou seja: trazer esses profissionais para construírem a tecnologia. À medida que as pessoas conhecem mais o funcionamento da inteligência artificial e os próprios algoritmos, elas passam a confiar mais neles. Consequentemente, sua preocupação fica concentrada apenas onde deveria estar: no paciente.”

Essa missão, segundo ele, ultrapassa o ambiente interno das instituições e precisa ser abraçada pelo setor, de forma ampla. “Temas como tecnologia e inteligência artificial têm que fazer parte do ensino do profissional de Saúde. Precisamos de um treinamento e de uma mudança profunda de cultura para confiarmos nos computadores e nos aproximarmos deles. É assim que a gente vai humanizar e melhorar, efetivamente, o atendimento.”

Wearables, autocuidado e envelhecimento saudável

Concluída essa lição de casa, Miranda diz que a porta fica aberta para a implementação de inovações mais disruptivas, especialmente aquelas ligadas ao autocuidado e monitoramento do paciente. Ele enxerga com bons olhos, por exemplo, o desenvolvimento dos ‘wearables’, os dispositivos tecnológicos que podemos vestir em nosso corpo, para cumprir essa função. 

“Esses wearables, como um relógio ou o telefone celular, poderão medir, por exemplo, a saturação. Imagine só um aparelho com a capacidade de medir a glicemia do paciente e que gera um alerta para um enfermeiro no caso de diabetes descompensado”, cogita.

Ele também cita outras possibilidades de uso dessa tecnologia, com dispositivos que possam identificar tanto uma infecção ainda em estágio inicial quanto um movimento abrupto do paciente – que pode significar uma queda no chão, por exemplo. “Os wearables poderão ter uma boa capacidade de trabalhar na medição de doenças neurológicas, que afetam o movimento, como o Parkinson. Essas ferramentas podem ser poderosas para isso.”

Além do monitoramento ativo, esses dispositivos também ajudam a engajar os próprios pacientes em seu cuidado. E é esse o ponto de maior transformação para que as pessoas envelheçam de forma ativa e tenham uma vida melhor.

“Envelhecimento saudável significa compreender que nós tratamos a saúde, e não a doença. Engajar o paciente é o caminho para que ele pratique o autocuidado, e é isso que irá trazer valor para a saúde e para o envelhecimento”, conclui.

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