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Designing Answers #1: sincronia e redes de assistência em Saúde no combate à Covid-19

A Saúde precisa sair do plano teórico e criar mudanças efetivas – essa é a motivação da nossa nova série de conteúdo. Na estreia, converso com Paulo Barreto, CEO do Hospital São Lucas, de Aracaju, sobre possíveis soluções para os desafios dos hospitais durante e após a pandemia

Martha Oliveira*

Como gerir uma situação de caos jamais esperada?

E como se preparar para as consequências de longo prazo?

Realizar a efetiva transformação das instituições e, consequentemente, do sistema de Saúde brasileiro depende de ação. Esse movimento envolve tirar as mudanças primordiais da zona da incerteza e espera, transformando-as em prática no dia a dia dos negócios. É para impulsionar essa ação que estreamos hoje a série “Designing Answers”. A cada dois meses, vamos convidar um executivo de Saúde do mercado para compartilhar suas dores por aqui e, juntos, desenhar possíveis caminhos e soluções para resolvê-las.

Nesta estreia, não tenho como deixar de falar que vivenciamos o pior cenário da pandemia da Covid-19, que completou um ano no Brasil em março de 2020. Mortalidade recorde, vacinação lenta, desorganização geral no combate à doença e colapso no sistema de Saúde de várias cidades e estados, com muitos hospitais atendendo bem acima de suas capacidades.

Foi em meio a esse cenário que eu convidei o Paulo Barreto, CEO do Hospital São Lucas, de Aracaju (SE), para este bate-papo. Ele falou sobre os principais desafios da gestão em Saúde neste momento em que a Covid-19 lota hospitais, ao mesmo tempo em que o tratamento de outras patologias, represado desde o ano passado, volta inevitavelmente a ocupar espaço.

E nós tentamos, juntos, encontrar respostas para esse cenário de caos. É difícil? É. Mas é possível. Vamos lá:

Paulo, o que temos visto Brasil afora são unidades de terapia intensiva lotadas como nunca antes desde que a pandemia teve início. Eu imagino que aí no Hospital São Lucas a situação não está muito diferente…

Paulo: “Aqui no hospital tínhamos 50 leitos de UTI e, agora, estamos com 100 leitos de UTI, a maior parte ocupada com pacientes de Covid-19. É uma situação muito complexa, mas estamos lidando com ela: abrimos leitos em diferentes lugares do hospital e focamos nossos recursos, inclusive de pessoal, no que tem demanda maior, que agora é a Covid-19. Só que temos, também, que nos preparar para os atendimentos em outras especialidades que ficaram represados até então e agora começam a retornar ao hospital. E ninguém fica sem assistência, independentemente da patologia.”

No início da pandemia, Paulo achava que ela teria um marco temporal. Primeiro, o sistema trataria todos aqueles que contraíssem a Covid-19 e, depois, daria vazão aos outros atendimentos. O problema é que nunca houve uma preparação para esse “depois”.

E um problema maior ainda é que a situação se agravou. Há idosos, por exemplo, que ficaram muito tempo em casa, mas agora estão vacinados e começam a buscar essa assistência que ficou paralisada. E a pandemia, enquanto isso, ocupa mais do que nunca o sistema de Saúde. Ficou evidente que as duas coisas conviverão juntas. Vai continuar esse “tudo ao mesmo tempo agora” nos próximos meses.

Paulo: “O que eu percebo é que essas retomadas têm sido surpreendentes tanto de um lado quanto do outro. Fomos, de certa forma, beneficiados no ano passado pelo esvaziamento prévio dos hospitais [de pacientes de outras patologias], o que fez com que a gente não entrasse no caos logo no começo. Mas estamos preocupados com a retomada porque não sabemos se ela vai nessa direção de superlotar ou se vai na direção de precisar desmobilizar tudo. Essas coisas não estão sincronizadas. Não existe um botão que clica e a pessoa diz “agora acalmou” e todo mundo corre para os hospitais. Tem muita pergunta sem resposta.”

Você falou uma palavra aí, Paulo, que para mim é o que está faltando mesmo. Essa palavra é:

SINCRONIA

Vai ser preciso organizar os pacientes de acordo com seus perfis, verificar se a patologia é grave e entender quais são as necessidades. E isso não é uma organização de Saúde sozinha quem faz.

Os governos, por exemplo, poderiam separar seus departamentos de saúde em uma ‘sala vermelha’, lidando com a crise da Covid-19, e uma ‘sala laranja’, que pensaria, desde agora, nesse pós-crise. Infelizmente, não vemos ninguém tomando a frente disso, mas alguém tem que fazer essa sincronia. A gente só não pode esperar que o hospital consiga parar agora para fazer isso, porque não há condições. Mas uma saída é o redesenho desse processo de busca e acesso ao sistema de Saúde, com a formação de redes de assistência que articulem o cuidado.

Precisamos montar essas redes – mesmo que, inicialmente, em um formato experimental – para organizar a assistência e, futuramente, escalar o modelo de alguma forma.

As operadoras de Saúde, talvez, tenham mais tempo, agora, para pensar nisso. Até porque, lá na frente, elas vão precisar se preparar para atender esse perfil não-Covid-19, que certamente vai precisar de muita assistência.

Uma coisa que essa crise nos mostrou é que, independentemente do sistema de Saúde do país, precisa haver uma política pública de saúde no combate à pandemia. Os Estados Unidos também passaram por questões parecidas nas discussões sobre esse enfrentamento à Covid-19. Então, não importa se é um sistema de saúde público, privado ou híbrido: a política pública é fundamental para articular uma resposta ágil.

Paulo: “Com as pessoas ficando mais em casa e se cuidando menos, esperamos que o perfil epidemiológico mude. E não sabemos qual vai ser esse novo perfil de pacientes do pós-pandemia…”

Teremos todo o tipo de público, mas há alguns perfis mais específicos. Temos os idosos, como eu já citei, e também as crianças. Hoje, com elas fechadas em casa, não temos casos de bronquiolite, por exemplo. Mas isso certamente irá voltar no futuro. E teremos que cuidar de outros aspectos das crianças também… elas estão ansiosas, com medo, e muito mais grudadas nas telas. Tudo isso gera uma consequência.

O atendimento à saúde mental certamente será uma necessidade gigante no pós-pandemia, assim como a fisioterapia, porque as pessoas ficaram tempo demais paradas em casa. Psiquiatras e fisioterapeutas podem se preparar para uma alta demanda.


Agora vem comigo refletir sobre mais alguns pontos que levantamos neste bate-papo:

  • Pós-pandemia e deslocamento para o cuidado em casa

Paulo e eu conversamos também sobre os aspectos positivos da pandemia. Um deles foi que as pessoas passaram a buscar mais informação. Hoje, elas sabem o que significa uma fase 1, 2, 3 de testes de uma vacina e param para assistir a uma reunião da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Quem imaginaria isso? Apesar de toda a desinformação – e fake news –, as pessoas se preocupam mais com o autocuidado agora.

Ao mesmo tempo, despontam as novas tecnologias, que deslocaram os cuidados de saúde do hospital para a casa das pessoas. A telemedicina é a mais óbvia, mas assistentes pessoais também são capazes de monitorar pacientes até pelo timbre de voz.

Isso já é feito em casas com idosos com Alzheimer, por exemplo, e pode ser estendido a outras patologias. Então, a gente observa que o atendimento de saúde, de alguma forma, está se deslocando para as casas das pessoas.

“Eu sou da área de tecnologia e acredito que ela ainda tem muito o que surpreender. Vai haver uma mistura das redes de assistência com o empoderamento do paciente para o cuidado da sua saúde.”

Paulo Barreto, CEO do Hospital São Lucas

  • E o futuro?

O papo se estendeu até a possibilidade de que as redes sociais sirvam também para esse monitoramento. “Não estaríamos mais bem servidos se o Facebook ou o Evernote funcionassem como nossos prontuários?”, questionou Paulo.

Eu acho que vai acontecer. Não sei se acontecerá com essas ferramentas, mas certamente a tecnologia terá um papel muito importante no monitoramento da nossa saúde.

A conversa sobre as perspectivas tecnológicas levou a duas dicas literárias do Paulo:

“The Patient Will See You Now” (“O Paciente Irá Vê-lo Agora”, sem tradução para o português)

Autor: Eric Topol, cardiologista e cientista norte-americano.

O título já é uma brincadeira com essas mudanças de paradigma na medicina. “Ele fala sobre como o smartphone pode contribuir para o empoderamento do paciente”, contou o Paulo.

O Novo Iluminismo

Autor: Steven Pinker, psicólogo norte-americano

E aí o papo começou a ficar um pouco mais tranquilo, levando para um lugar onde o futuro é menos dark. “O Bill Gates contou que este é o melhor livro que ele leu nos últimos anos. Porque ele mostra que, apesar de tudo, o mundo melhorou”, disse Paulo.

“Claro que o mundo não é perfeito, ainda mais com a gente submerso na história do coronavírus. Mas há menos guerra do que no passado; os pobres de hoje não são iguais aos pobres do passado; o perigo nuclear não é mais o mesmo. Mesmo se pensarmos na pandemia: como seria se ela acontecesse há 40 anos?”

Paulo Barreto, CEO do Hospital São Lucas

É… nem mesmo esse papo seria possível.

*Martha Oliveira é diretora executiva da Designing Saúde.

Esta conversa foi mediada pelo jornalista Marcelo Freire, da agência essense.